Atendimento Clínico

Dificuldade de Aprendizagem

Para aprender, é necessário acessar de forma adequada os estímulos ambientais e os conhecimentos em nossa memória, que são conectados e armazenados, para posterior recuperação. Assim, diante das variadas informações disponíveis, cada um de nós deve selecionar o que é relevante, transformar em códigos, manter na forma de representações durante um curto espaço de tempo e ser capaz de manipular, comparar e modificar constantemente estratégias e concepções de mundo.

Para isso, é preciso uma rede de conhecimentos prévios rica e conectada, processos metacognitivos, tolerância para a automatização e repetição de atividades para consolidação na memória, criatividade para a resolução de problemas e estabilidade ambiental e emocional que deem suporte para toda a frustração atrelada a esse processo.

Nesse sentido, há uma heterogeneidade de fatores associados às dificuldades de aprendizagem, que podem ser agudas ou crônicas.

Todos nós, em algum momento da vida, apresentamos alguma dificuldade aguda de aprendizagem, ou seja, não entendemos um ou outro conteúdo de uma área do conhecimento. Isso pode ter como causa não termos prestado atenção em aula ou nos faltar algum pré-requisito ou não termos estudado o suficiente. Dificuldades agudas podem ser solucionadas através de um estudo aprofundado ou da ajuda dos colegas, do professor da escola ou de um professor particular. 

as dificuldades crônicas de aprendizagem são mais difíceis de serem resolvidas. São aquelas que iniciam em algum momento e, em razão de não terem sido solucionadas adequadamente, carregamos conosco ao longo de toda a vida escolar. Podem ser causadas por questões biológicas, psíquicas ou ambientais e se associam a consequências psicossociais graves, como abandono escolar, fracasso profissional, uso de drogas e transtornos de saúde mental, por exemplo.

Assim, além da implementação de práticas preventivas no contexto escolar, é necessário uma atuação clínica efetiva que vise à avaliação, ao diagnóstico e ao tratamento adequados.

Como as dificuldades de aprendizagem tem causas e consequências multifatoriais, o ideal é um trabalho multidisciplinar que abarque as questões cognitivas, emocionais, estruturais, familiares e escolares. Assim, a avaliação precisa ser ampla e o tratamento deve ser formulado de forma colaborativa por uma equipe de expertises, que organiza o plano terapêutico em objetivos e tratamentos a serem realizados em curto, médio e longo prazo.

Há ainda muito preconceito associado às dificuldades de aprendizagem e uma grande resistência em procurar ajuda. O senso comum tem muitas explicações e encaminhamentos que não solucionam o problema. Precisamos olhar para essas crianças e adolescentes, estender a mão e oferecer o cuidado e a estimulação que elas merecem. Pais e professores precisam entender que não é preguiça.  Eu costumo dizer que, em dez anos de atendimento clínico, NUNCA atendi um estudante que não quisesse aprender. Jamais conseguiremos nos colocar no lugar deles e compreender com profundidade o tamanho da dificuldade que enfrentam, mas podem ter certeza, há muito sofrimento e muito esforço envolvidos.

Por Francéia Liedtke, psicóloga clínica e pesquisadora

mestranda no Programa de Pós  Graduação em Psicologia  – UFRGS

Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva – UFRGS