Contexto Familiar

Álcool na Adolescência

Ouvi em uma rádio o trecho de um programa em que um médico respondia perguntas enviadas pelos espectadores sobre saúde. Uma das perguntas me chamou a atenção: era de uma mãe de adolescente muito preocupada porque a filha exagerava na vodka com energético e não sabia como agir. Tentei me colocar no lugar dessa mãe, dessa filha e do médico para pensar na resposta que eu daria, caso fosse direcionada a mim.

Nossa sociedade banaliza e estimula o consumo de álcool. Bebemos álcool para comemorar uma conquista, para compartilhar as alegrias e as tristezas, para afogar as mágoas e para relaxar na beira da praia. Para os adolescentes (e para muitos adultos) o álcool dá coragem e facilita a aproximação, porque mascara a timidez e a tristeza e reduz o freio inibitório.

As mídias sociais nos bombardeiam diariamente com imagens de gente feliz e linda e oferecem um manual de como se deve ser para ter amigos e para conquistar o Crush. A vida real é bem diferente: nosso dia a dia é monótono, vivemos momentos tristes, sentimos solidão, nem sempre temos dinheiro. Os adultos conseguem discernir e avaliar com maior frieza todo esse bombardeio. Os adolescentes estão em um momento de formação da personalidade, de criação de um eu e de valorização dos iguais.

Eles, assim como as crianças, estão dentro desse sistema e somos co-responsáveis pelas escolhas que eles fazem. Se desde pequenos vivenciam o álcool como um remédio para todos os males, se percebem o óbvio (não são perfeitos), se não suportam esse óbvio e se apresentam qualquer questão de saúde mental, o desfecho fica bem claro.

Voltando à mãe e à filha, acho que diria para elas buscarem ajuda. Assim como não devemos banalizar o uso do álcool em nosso dia a dia, não devemos banalizar o consumo de álcool entre os adolescentes. Um adolescente não escolhe beber (principalmente em excesso) por nada. Algo está errado. Os pais precisam saber disso e precisam saber da responsabilidade legal sobre seus filhos. No longo prazo, fingir que nada está acontecendo ou ser o adulto parceiro que libera a bebida pode ter consequências irreparáveis.

O cérbero adolescente ainda não maturou completamente: a zona do prazer está mega ativada e o freio inibitório ainda não desenvolveu-se por completo. Apesar de acharem que são donos de si, ainda não tem toda a condição de decidir tudo sobre sua vida.

Os pais precisam ser os chatos.
E tudo bem se eles derem “piti” após o não.
Vá por mim.
Mais tarde eles irão agradecer.

Por Francéia Liedtke, psicóloga clínica e pesquisadora

mestranda no Programa de Pós  Graduação em Psicologia  – UFRGS

Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva – UFRGS