Contexto Familiar

“Atypical” sob o ponto de vista de um pai e de uma mãe de um menino com diagnóstico de TEA

Nós, da Semear, temos como missão divulgar conhecimentos e promover intervenções precoces para contribuir para a qualidade de vida das crianças. Com desenvolvimento infantil não se brinca! É por isso que um de nossos cursos, no próximo sábado, dia 29, em Porto Alegre, foca na capacitação de educadores e clínicos a respeito do TEA – Transtorno do Espectro Autista, auxiliando na identificação precoce do problema.

O assunto está em alta na ficção graças ao sucesso do seriado ATYPICAL, na Netflix, que retrata a vida de um rapaz de 18 anos diagnosticado dentro do espectro do autismo. Convidamos uma família de Canoas para comentar os destaques do seriado e mostrar porque todas as pessoas deveriam se apropriar mais do tema e quebrar o tabu de falar sobre o assunto. Com vocês, o casal Diva de Morais, 39 anos, e Emerson Ricardo Vidal Petro, 40, juntos há 17 anos. Eles são pais da Alice, 7 anos, e do Joaquim, que tem quase 5 anos, diagnosticado dentro do TEA aos 3 anos.

Por DIVA DE MORAIS, costureira e empreendedora

“Todos deveriam assistir Atypical. A série traz um olhar bem relevante sobre a família dos neuroatípicos e todo o impacto que esse diagnóstico traz. Na primeira temporada, o foco é mais na mãe e em suas angústias, no mito da mulher perfeita caindo por terra. O mais interessante é mostrar o quanto o adolescente Sam, o protagonista, vivido por Kier Gilchrist, amadurece e quer viver um amor (da maneira dele, mas quer). Sentimos muita identificação da história com a da nossa família, pois quando temos uma criança autista, percebemos que tudo gira em torno dela e, com isso, vem a culpa por não conseguir dar a atenção necessária à irmã. As terapias, a escolha da escola, rotina, horários… Estas questões são retratadas nos flashbacks do passado de Sam e de Casey, a irmã mais nova do personagem. Nós tentamos aqui, eu juro que tentamos, mas na maioria das vezes não conseguimos sair só com a nossa menina, dar prioridade a ela, deixá-la fazer as escolhas… E isso é angustiante. Na segunda temporada de Atypical, o olhar sobre a irmã e o pai é bem mais preciso. Fala-se muito mais do pai que nega o diagnóstico, que não entende a filha e que se afasta da esposa. Gostei muito do recorte sobre os problemas da família, sobre as fragilidades, sobre brigas e culpas. Isso porque o pouco que se fala na ficção sobre pessoas autistas evoca a visão de ‘gênios’, que no fim da história fazem uma grande descoberta que mudará o futuro da humanidade. Não é bem assim na vida real. Crianças diagnosticadas dentro do espectro autista têm crises, passam por problemas de socialização, sofrem preconceitos e bullying. Há atrasos no desenvolvimento e na cognição, são ‘diferentes’ e buscam direitos. Quando estão incluídos, a família se transforma, se modifica. Mas, assim como na série, acredito que o amor move tudo – e assim é será na nossa também!”

Por EMERSON PETRO

“A grande dificuldade que eu vejo na maioria das produções de ficção referente ao TEA é o foco na ‘superinteligência’, existente em alguns casos. No seriado ‘Atypical’, temos isso com enfoque menor, abrangendo muito mais o dia-a-dia da família, trazendo à tona as adaptações impostas a todos a sua volta, principalmente a irmã. A segunda temporada foi para mim a mais tocante, pois nos apresentou na tela pontos que precisávamos ver de fora para permitir uma melhor reflexão. Por mais que estejamos alertas, às vezes nos pegamos fazendo do Joaquim o nosso centro das atenções, adequando tudo e todos à sua volta, principalmente no que diz respeito à irmã. Alice, como qualquer filho mais velho, “compete”, briga e provoca o irmão, porém isso normalmente libera uma crise ou gera um pequeno caos. Outro ponto que nos impactou é a visão do afastamento de pessoas que faziam parte da sua rotina e do nada são “abduzidas” e somem, bem como a minimização dos fatos, com frases do tipo: “Nem parece que ele tem alguma coisa” ou “Será que isso não é para chamar a atenção?”. Fechando o tema, não dá para passar alheio ao fato de que afeta a vida do casal, visto o cansaço, a vigília e a falta de apoio de nós, os PAIS. Somos nós os mais desinformados (na maioria dos casos), relutamos a aceitar os fatos e a falar do assunto. Mas é preciso desmitificar o tema em todos os aspectos.”