Contexto Familiar

Saiba como foi a colheita: ADOÇÃO TARDIA

Como se formam os vínculos em famílias que adotam crianças acima de três anos? Este foi o tema principal da primeira palestra aberta à comunidade da Semear – Psicologia e Neurociência A Serviço das Pessoas, em Porto Alegre. Na noite de quinta-feira, promovemos nossa primeira Colheita e convidamos a psicóloga Gabriela Resmini, da Affetto Psicologia, a compartilhar sua pesquisa sobre o assunto. A palestra “Construção da Parentalidade na Adoção Tardia” mostrou os resultados de seu estudo realizado para a dissertação de mestrado na UFRGS.

Para introduzir o assunto, Gabriela recuperou o histórico de adoção no Brasil e mostrou o panorama da nova cultura da adoção no país, que tem como princípio o melhor interesse da criança e do adolescente. Os procedimentos obrigatórios atualmente para adotar são buscar a Vara de Infância e Juventude, passar pelo processo de preparação psicossocial e entrar na fila de espera, com o cadastro unificado (CNA).

Seis famílias de diferentes perfis foram entrevistadas no período de um ano e sete meses a dois anos e quatro meses após a chegada da criança. Os casos acompanhados são da chamada “adoção tardia”, considerado quando o filho tem mais de  dois anos de idade. A psicóloga mostrou quais são os desafios da parentalidade adotiva, entre eles o desconhecimento da história pregressa da criança, a valorização dos laços sanguíneos pela sociedade, mitos e preconceitos que entornam a adoção e o estigma da vulnerabilidade psicológica das crianças adotivas.

– É preciso falar de aspectos que ainda são tabu e entender a complexidade de fatores que envolvem esse encontro de adotantes e adotados, este encontro de duas histórias – afirmou a psicóloga.

Gabriela ilustrou alguns relatos sobre os sentimentos das famílias acerca de temas como a  fragilidade dos vínculos iniciais, a insegurança dos adotantes em aspectos como o ser chamado de “pai e mãe” rapidamente e outro tabu, o ambivalente “desejo de devolução”. Também relatou casos em que as crianças testam com suas atitudes aquele vínculo que está sendo construído, com comportamentos como choro, regressão (falar como um bebê), verbalizações (“tu não é meu pai!”) ou mesmo agressividade (bater ou chutar, “para ver até onde aguentam”).

– Os vínculos entre pais e filhos, biológicos ou não, muitas vezes são vistos como instintivos e naturais. No entanto, eles são construídos nas trocas diárias realizadas  – pontuou Gabriela.

Os depoimentos reforçam a ideia de que a chegada da criança nem sempre acompanha a sensação de ser pai e de ser mãe. Não é um processo imediato, mas pais e mães sentem-se forçados ao vínculo. O que ocorre, explicou a palestrante, é que há dois processos ocorrendo simultaneamente: a busca dos adotantes em assumir o papel parental e as reações da criança na necessidade de se vincular, tendo outras experiências de perda em seu passado.