Contexto Familiar

Saiba como foi a palestra CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO

Vamos falar de vínculo e vamos nos sintonizar? Este foi o convite da nossa palestrante na estreia do calendário de 2018 de cursos da Semear – Psicologia e Neurociência a Serviço das Pessoas, no dia 8, em Porto Alegre. As mães presentes puderam acompanhar a fala da mestre em Psicologia Marisa Marantes Sanchez, tutora da atenção ao recém-nascido, sobre todos os aspectos comportamentais e científicos que envolvem a CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO do bebê com seus cuidadores. Para isso, explicou conceitos de neurobiologia interpessoal e da psicologia perinatal (estudo da influência do evento do nascimento na gênese das funções neuropsicológicas, na estruturação da realidade e no desenvolvimento pessoal, relacional e social) e deu uma verdadeira aula sobre como funciona a criação das primeiras memórias em bebês de zero a dois anos.

As primeiras interações são registradas já durante a gestação a partir dos sistemas sensoriais do bebê. Marisa trouxe informações sobre o funcionamento da citoarquitetura neurológica em recém-nascidos e sobre como se formam os esquemas mentais durante o desenvolvimento das crianças. A psicóloga e professora explicou ainda sobre como a mãe deve ser a tradutora dos sentimentos de seu bebê desde o nascimento.

– É extremamente valioso a mãe falar com o bebê sobre tudo o que está acontecendo. Tratar seu filho como sujeito, não um objeto que vai para lá e para cá durante a rotina. “Agora vou tirar sua fralda, agora vamos tomar banho, agora vamos mamar…”. Mesmo pequeno, ele compreende estas ações do cuidador. O choro de fome, quando reconhecido, deve ser interpretado pela mãe e traduzido na forma da fala: “Eu entendi que estás com fome, meu filho, vou preparar sua mamadeira ou sua comidinha agora”. O bebê tem que sentir esse cuidado, “alguém está em sintonia comigo” – afirmou na palestra.

Marisa trabalha na orientação de famílias para mostrar como as relações iniciais que o bebê experimenta irão repercutir no funcionamento mental de toda sua vida futura. Essas experiências interpessoais vão moldar a estrutura e sua função cerebral. Vale destacar aqui o quanto o apego seguro se faz importante para a criação de indivíduos saudáveis emocionalmente e cognitivamente.

MEMÓRIAS E BEM-ESTAR

A respeito das lembranças desde a gestação, Marisa explica que a memória emocional da criança é inconsciente, mas quando é ativada se expressa através de comportamentos e sensações corporais. Vários estudos que comprovam que seu filho desde a barriga já reconhece sua voz, sente emoções como tristeza e alegria. Depois de nascer, é a qualidade dos primeiros contatos (como as demonstrações de afeto) que irá contribuir na formação de seu comportamento, ajudando no desenvolvimento sadio. Será formada a chamada “base segura”, a ideia de que a figura de apoio e protetora estará disponível. Dessa forma, a proximidade física se torna um conceito mentalizado, internalizado e, acima de tudo, emocional.

Bem-estar e conforto estão no topo de prioridades do que uma criança precisa durante o processo de desenvolvimento. A emoção tem lugar-chave nesse processo de organização e expressão do sentimento de segurança. Marisa também abordou a questão de atender as necessidades do bebê. É hora de derrubar o mito da “balda” e explicar que as demonstrações de afeto são essenciais: se o recém-nascido chorou, é porque está com algum desconforto, e o cuidador precisa atendê-lo.

– Mas não aquele atendimento automático, de apenas resolver o problema. Tem que tocar o bebê (a pele é o maior órgão do corpo humanos, não é à toa), olhar nos olhos, conversar, falar, estabelecer o vínculo de forma afetuosa e segura.

Neste ponto, Marisa alerta que deixa um recém-nascido chorando no berço, por exemplo, até ele pegar no sono sozinho causa uma descarga de cortisol (o hormônio do estresse) na corrente sanguínea. É o que chamamos de estresse tóxico. Cada vez que isso ocorre, este estresse tóxico mata neurônios, e estes são essenciais para o desenvolvimento cerebral.

– O bebê precisa de atenção e de consolo neste momento, não é assim que ele “aprende sozinho” – concluiu.